
Ela acordou no meio da noite, soltou um gemido rouco, baixo, quase imperceptível, muito parecido com um animal quando esta ferido… E era desse modo que estava se sentindo, como há um animal ferido. Ferida que nunca cicatriza, que lateja sempre quando o outro não esta por perto. Enfiou a mão por debaixo da camiseta, os dedos finos tocaram a carne quente, apertava contra o peito para tentar amenizar aquela dor, para tentar fazer com que aquilo parasse, que saísse de seu corpo, de sua mente.
Levantou-se, jogou o cobertor de lado que rolou para o chão. Ainda com o corpo quente atravessou com passos miúdos o quarto escuro, tateou com precisão os moveis a sua frente para não esbarrar. Abriu a porta sem fazer ruídos, pois já bastava os seus próprios ruídos, aqueles que vinha de dentro de si mesma. Ruídos que só ela ouvia quando achava que ninguém prestava atenção nela, ruídos que sentia quando via a pessoa que tanto desejava. Só ela sabia!
Sentiu de imediato o vento gelado de fora bater no seu rosto, fazendo espalhar os fios dos seus cabelos em seu rosto. Caminhou lentamente sentindo sob os pés descalços o piso frio e úmido, segurando com força uma das mãos na parede para não cair ali, procurava ser cuidadosa.
Não queria acordar ninguém, não queria acordar a casa. Via cada vez que se aproximava da mureta as gotas finas, gotas que atravessavam o manto da noite e caiam levemente na calçada, gotas que se avolumavam, formavam poças claras, desciam em cascatas pela rua e eram engolidas pelo primeiro bueiro que encontravam.
Ela bateu o joelho na mureta da varanda, não percebeu que o corredor tinha terminado, deixou os braços relaxarem sobre o bloco frio e ali com metade do corpo agora colado na mureta.
Sentindo mais forte o vento bater em seu rosto ainda intumescido, deixou a cabeça pender e cair sobre seus braços, os fios negros espalharam-se sobre a pele,
Misturaram-se com os fios já existentes naquele pedaço de carne que logo tomou uma cor arroxeada. Os fios sacudiam ferozes a cada rajada de vento que ora vinha de uma direção ora de outra. Mais ela não se importou… Com os olhos piscando rapidamente por causa das gotas que agora caiam no seu rosto, ficou olhando a rua vazia, as gotas descerem pelas paredes das casas. E ali ela ficou, esperando que a noite acabasse, que o céu negro sumisse, esperou avidamente que aquela dor aberta no peito fechasse, que parasse de doer. Mas ela assistiu a dança das gotas, ouviu o silencio cantar para ela uma melodia do mundo, e mesmo quando nenhuma gota mais caiu, quando o céu negro sumiu , quando o silencio por fim calou-se, ela continuou ali, encostada naquela mureta! Com a ferida da saudade mais aberta do que nunca, surrando, ardendo, latejando em seu peito…
(via baconcmpipoca)
| Como você estaria hoje sem mim? |
| Provavelmente, eu não estaria aqui. |
| Estaria aonde? |
| Te procurando. |
Obrigada meu anjo, volte sempre! ;)